O que é ergonomia e como podemos ligá-la com a iluminação?

Me causa espanto a forma como falam sobre – e ensinam – Ergonomia de forma equivocada. Na maioria das vezes a resumem à acessibilidade sendo que esta é apenas um minúsculo recorte dentro desta ciência. Vejo também a disseminação de imagens e mais imagens, baseadas em Neufert, considerando as distâncias entre usuário e objetos e/ou mobiliários – também circulações – como se fosse o supra-sumo da perfeição. Mas, novamente, isso é apenas outro minúsculo recorte dentro da Ergonomia. Para piorar a situação, esse modismo chegou à área de projetos de iluminação na forma do tipo “receitas de bolo de caixinha” que, francamente, de nada servem na prática a não ser acentuar os erros nos projetos de iluminação além de criar uma cultura de erros.

Para projetar iluminação hoje em dia, considerando que esta área não se trata mais de um projeto complementar e sim de uma profissão autônoma e com características específicas sobre a sua função e forma de fazer, devemos ter a capacidade de olhar de forma holística o todo onde o projeto será implantado, para que e o que ele servirá bem como, quem são os usuários que serão beneficiados por ele. Aqui entra outro aspecto que não tem a ver diretamente com a Ergonomia apesar de também fazer parte dela, mas de igual forma, exige uma minuciosa coleta e análise de dados e o correto entendimento do que são e para que servem as ferramentas Programa de Necessidades e o Briefing – que não, não são a mesma coisa. Mas isso é assunto para outra coluna.

Segundo a ABERGO (Associação Brasileira de Ergonomia[1]) esta ciência está dividida em três grandes áreas de estudos e pesquisas:

Ergonomia física – está relacionada com às características da anatomia humana, antropometria, fisiologia e biomecânica em sua relação a atividade física. Os tópicos relevantes incluem o estudo da postura no trabalho, manuseio de materiais, movimentos repetitivos, distúrbios músculo-esqueletais relacionados ao trabalho, projeto de posto de trabalho, segurança e saúde.

Ergonomia cognitiva – refere-se aos processos mentais, tais como percepção, memória, raciocínio e resposta motora conforme afetem as interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema. Os tópicos relevantes incluem o estudo da carga mental de trabalho, tomada de decisão, desempenho especializado, interação homem computador, stress e treinamento conforme esses se relacionem a projetos envolvendo seres humanos e sistemas.

Ergonomia organizacional – concerne à otimização dos sistemas sócio-técnicos, incluindo suas estruturas organizacionais, políticas e de processos. Os tópicos relevantes incluem comunicações, gerenciamento de recursos de tripulações (CRM – domínio aeronáutico), projeto de trabalho, organização temporal do trabalho, trabalho em grupo, projeto participativo, novos paradigmas do trabalho, trabalho cooperativo, cultura organizacional, organizações em rede, tele-trabalho e gestão da qualidade.

A Ergonomia não é focada apenas em um produto ou serviço, mas na interação homem-trabalho e este, pode ser um produto ou ambiente. Trabalho este no sentido amplo de realizar uma ação com um determinado fim. Ao analisarmos cada aspecto elencado nas três áreas, trazendo-os para a iluminação – da concepção de produtos ao usuário final – percebe-se que a atenção a estes aspectos são necessários também em nossa profissão.

Este é um exercício que sempre faço com meus alunos dada a escassa bibliografia específica em Design de Interiores e Iluminação (ou Lighting Design). Então, busco referências sérias e validadas sobre o assunto – para não cair no “achismo” (Morin) – e os levo a análise e reflexão, num exercício imagino-criativo, transportando o conhecimento de uma área para outra, identificando como, onde, quanto, porque e para que utilizá-lo aplicando-o, por fim, em seus projetos.

Assimilar e internalizar o correto conhecimento e entendimento sobre o que é Ergonomia e como aplica-la em seus projetos se faz necessário para que criemos uma cultura profissional que vise, acima de tudo, a segurança, o conforto e o bem-estar de nossos clientes atendendo às suas necessidades individuais e/ou coletivas – dependendo do espaço e uso do mesmo.

Alguns podem se perguntar: “Mas e a Estética? Você em momento algum falou dela. Ela não entra nisso?”. Sim entra. Porém, não na forma de vistosos ou caríssimos lustres – status e/ou modismos – e sim, através do desenho que se faz com a luz nos espaços, transformando-os ao ponto de emocionar os usuários apenas com a luz, matéria não palpável de nossa profissão. Nesse sentido, vale ressaltar também, através de um exemplo fácil de compreender, que no teatro e em shows você não vê as luminárias porém, a luz desenhada e visível nos palcos é peça fundamental para preencher e dar vida e forma à narrativa proposta.

E é esta a ideia de minha coluna aqui no Portal. Que fique claro: não entregarei “receitas de bolo de caixinha” em momento algum e sim, darei os elementos e guiarei sua mente por caminhos até então desconhecidos para que possam refletir sobre os aspectos ergonômicos aplicados na iluminação e Lighting Design.

[1] http://www.abergo.org.br

 

 

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