Estudo relaciona o uso da luz artificial ao câncer de mama e próstata

 

Basicamente o sistema visual tem diversos fotorreceptores. Além dos cones e bastonetes, fotorreceptores responsáveis pela visão, o ser humano também possui fotorreceptores responsáveis por regular nosso sistema circadiano, nosso sistema ciclo vigília.

O criptocromo, ativado pelo espectro azul da luz na fase clara, é responsável pela vigília, ativando nosso sistema colinérgico (acetilcolina) quanto o aminérgico (serotonina, noradrenalina, dopamina e histamina)

E a melanopsina, fotorreceptor responsável pela produção da melatonina que ativa sua produção durante o ciclo escuro.

A Melatonina apresenta um padrão de secreção sensível à luminosidade, com início de elevação no começo da noite e queda no final. Sob circunstâncias naturais de um ciclo claro-escuro ocorre uma produção rítmica circadiana de melatonina. Conforme nossos olhos registram o cair da noite, a glândula pineal inicia a produção de melatonina para auxiliar o nosso organismo a regular a entrada nos estágios mais profundos do ciclo do sono, cujo ápice acontece nas horas mais escuras da madrugada durante o sono REM, momentos onde observamos intensos movimentos nas órbitas oculares. É neste estagio que acontecem os sonhos mais complexos e onde ocorre o descanso das células cerebrais. A produção máxima de melatonina é alcançada durante o sono REM e coincide com os períodos de maior escuridão.

A melatonina é vista como o hormônio da juventude, e longevidade porque tem um efeito poderoso sobre os outros hormônios, ela atravessa rapidamente todas as barreiras membranosas e é considerada o melhor antioxidante conhecido, ela é muito eficaz no combate aos radicais livres. A melatonina chega aos órgãos e tecidos através da corrente circulatória. As mulheres são mais sensíveis às flutuações deste hormônio que os homens porque a secreção da melatonina diminui acentuadamente na menopausa.

O espectro azul na luz artificial bloqueia a produção da melatonina, gera um atraso no ciclo circadiano e causa a fadiga no organismo, em consequência, o câncer. O espectro azul está presente em diversos tipos de fontes de luz artificial, e principalmente nas fontes de LED.

Pesquisas recentes, publicadas em 2018 pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona, em colaboração com a Universidade Exeter no Reino Unido, sob orientação do médico Alejandro Sánchez de Miguel, indicam que o espectro azul na luz artificial está ligado a um “aumento significativo” no risco de câncer de mama e no câncer da próstata.

O estudo descobriu que os participantes que vivem em grandes cidades com exposição intensa a luz azul à noite tinham o dobro do risco de câncer de próstata e 1,5 vezes maior risco de câncer de mama em comparação a populações com menor exposição à luz azul. Quanto maior a emissão de luz que as pessoas nas grandes cidades estavam expostas, maior o risco de câncer. O estudo também descobriu que as pessoas que viviam em casas com aposentos mais escuros, usando blackout, por exemplo, tinham menos risco do que aquelas que não o faziam.

No primeiro estudo deste tipo, os níveis externos de luz artificial foram avaliados com base em imagens noturnas feitas por astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional da NASA.
O estudo, publicado no Environmental Health Perspectivas, inclui dados médicos e epidemiológicos de mais de 4.000 pessoas entre 20 e 85 anos de idade em 11 regiões espanholas. Examinou particularmente Madrid e Barcelona.
A exposição interna à luz artificial foi determinada através de questionários pessoais.

Como diversas cidades estão substituindo a iluminação por LEDs, todos nós estamos expostos a níveis mais altos de luz azul, muito comum neste tipo de tecnologia, e ao que tudo indica pode atrapalhar nossos relógios biológicos. O ser humano evoluiu durante milhares de anos para um ciclo de luz natural solar durante o dia, e um ciclo escuro durante a noite, fato que mudou radicalmente nos últimos 100 anos com a eletricidade e as facilidades conquistadas através dela. Mas todo este conforto pode ter um preço alto na saúde humana.

As pesquisas sobre os impactos da luz no ser humano são extremamente relevantes. Há aproximadamente 60 anos conhecemos o hormônio da melatonina e suas funções, e mais recentemente, entramos em contato com o fotorreceptor da melanopsina em nosso conjunto ocular, responsável pelo controle da produção deste hormônio tão importante para nossa saúde, e as novas descobertas indicam uma forte ligação da exposição à luz no período noturno ao aumento dos casos de câncer.

Estes dados tornam necessária a investigação sobre a aplicação da iluminação nas cidades, sua tipologia, aspectos como a luz invasiva nas janelas e suas consequências na produção do hormônio da melatonina. Atualmente as imagens de satélite serviram as pesquisas já publicadas, mas vejo a necessidade da coleta de dados em bairros residenciais da cidade de São Paulo para determinar possíveis distúrbios, já que sabemos que os ciclos circadianos de claro e escuro, afetam a nossa produção hormonal.

Ambos os cânceres de mama e próstata são relacionados a hormônios. Sabe-se também que a luz artificial, particularmente no espectro azul, pode diminuir a produção e a secreção do hormônio melatonina durante o sono.
A melatonina desempenha um papel fundamental na regulação dos ciclos de dia e noite e tem várias outras funções importantes, por exemplo, é um poderoso antioxidante e também tem uma função anti-inflamatória. No entanto, seu papel no câncer de mama e próstata ainda não é compreendido.

Manolis Kogevinas, pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona e coordenador do estudo, disse: “A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial de Saúde (IARC) classificou o trabalho noturno como provavelmente carcinogênico para humanos. Há evidências que apontam para uma associação entre a exposição à luz artificial durante a noite, a interrupção do ritmo circadiano e os cânceres de mama e próstata.
“Com este estudo, procuramos determinar se a exposição noturna à luz nas cidades pode afetar o desenvolvimento desses dois tipos de câncer”.

Martin Aubé, professor de física do CÉGEP em Sherbrooke, Canadá e coautor do estudo, disse: “Sabemos que dependendo da intensidade e do comprimento de onda, a luz artificial, particularmente no espectro azul, pode diminuir a produção e a secreção de melatonina”.

O estudo foi realizado no âmbito do projeto MCC-Espanha co-financiado pelo “Consórcio de Investigação Biomédica em Red de Epidemiologia e Saúde Pública” (CIBERESP).

Ariadna García, pesquisadora do Instituto para a Saúde Global de Barcelona e primeira autora do estudo, diz: “Dada a onipresença da luz artificial à noite, determinar se aumenta ou não o risco de câncer é um problema de saúde pública”.

“Neste ponto, mais estudos devem incluir mais dados individuais usando, por exemplo, sensores de luz que permitem medir os níveis de luz interna.

A transição do sódio para a iluminação exterior LED nos últimos anos parece ter tornado a poluição luminosa global pior,uma equipe de pesquisadores que estudaram imagens da Nasa diz que, nos últimos quatro anos, a área iluminada da Terra cresceu 2 %. O crescimento foi mais pronunciado nos países em desenvolvimento.

Embora o aumento da prosperidade tenha representado parte desse aumento, os cientistas acreditam que os LEDs são parcialmente culpados. Minha observação sobre este assunto é que a capacitação profissional é um grande agravante aos impactos gerados pela má aplicação da iluminação pública, desde as luminárias de baixa qualidade, sem controle de ofuscamento e temperatura de cor correta. É bom ressaltar que atualmente, a AMA recomenda o uso de luz quente na iluminação das cidades, de 2700 a 3000 Kelvin e que esta luz não ultrapasse 4000K porque todas as pesquisas relacionadas a degeneração e causas do câncer estão relacionadas a interrupção e falhas na produção de melatonina no organismo. (vide premio Nobel de medicina 2017 sobre o ciclo circadiano)

O pesquisador chefe do Centro de Pesquisa Alemã para Geociências em Potsdam, Christopher Kyba, , disse à BBC de Londres que a introdução da luz artificial era “uma das mudanças físicas mais dramáticas que os seres humanos fizeram no nosso meio ambiente no ultimo século. Eu esperava que nos países ricos – como os EUA, o Reino Unido e a Alemanha – veríamos diminuições na poluição luminosa nas cidades, mas em vez disso o que vemos são os paises ficando cada vez mais brilhantes”.

A equipe antecipou uma diminuição do brilho nas áreas desenvolvidas e industriais, pois o alaranjado de sódio foi substituído por LEDs, mas na verdade o inverso aconteceu.

Para piorar as coisas, o sensor de luz do satélite – um radiômetro – não é capaz de medir a parte mais azul do espectro de luz que os LEDs emitem o que significa que a poluição luminosa visível é ainda pior do que a medida.

“Porque há mais luz azul em LEDs do que em sódio, é mais propensa a ser espalhada devido ao efeito Rayleigh”, explicou o Lighting Designer Alan Tulla ao editorial da LUX Magazine. “Um fator adicional seria a queda dos preços das luminárias LED globalmente”.

As descobertas certamente aumentarão a pressão sobre a indústria de iluminação para levar a poluição luminosa a sério e melhorar a óptica e controle de luz refletida.

As luminárias de sódio emitem um espectro de 589,0 a 589,6 nanômetros, quase monocromático. Pesquisas indicam que o espectro ideal a aplicação em exteriores seria de 585 a 595 nanômetros, para diminuição da reflexão e menor atração de espécies animais. Além de utilizar uma luminária Full-cutOFF, para evitar a Fototaxia positiva e o ofuscamento.

O conceito de Poluição Luminosa é o tipo de poluição ocasionada pela luz excessiva ou obstrutiva criada por humanos, ela interfere nos ecossistemas, causa efeitos negativos à saúde, ilumina a atmosfera das cidades, reduzindo a visibilidade das estrelas e interfere na observação astronômica.

O “Guia de orientações para a redução da luz intrusa”, lançado em 2011 pela ILP (Institution of Lighting Professionals – UK) é uma publicação que dá algumas dicas para melhores praticas na iluminação noturna nas cidades, a fim de minimizar os danos causados pela poluição luminosa.

Pense antes de iluminar – Qual é a quantidade certa de luz? Onde, quando e porque iluminar.

A invenção da luz artificial foi um benefício ao iluminar nosso ambiente noturno em relação à segurança, mas, se não for devidamente controlada, a Poluição Luminosa (também chamada luz intrusa) pode causar sérios problemas fisiológicos e ecológicos.

A luz intrusa é aquela que mantém você acordado. Além de invadir o escuro do seu quarto através da janela, também impede a visualização das estrelas no céu noturno, é uma forma de poluição.  É um grande incômodo que pode ser substancialmente reduzido sem prejuízo à tarefa de iluminação se houver um bom projeto luminotécnico e a utilização da luminária correta.

Sky Glow, é o reflexo da luz no céu noturno, é o brilho incômodo de uma fonte de luz a noite que causa o ofuscamento além de refletir no céu a ponto de velar as estrelas.

Poluição luminosa é toda luz que foge além do limite da propriedade ou da área à ser iluminada. São todas formas de luz que podem causar algum incômodo aos outros além de desperdiçar energia.

Pense antes de iluminar, reflita; Esta luz é necessária? Que efeito trará aos outros? Causará algum incômodo? Posso minimizar este problema?

Não utilize mais luz do que o necessário e desligue as luzes quando a tarefa estiver concluída.

Na maior parte dos casos um nível mais baixo de iluminação será suficiente para melhorar a segurança durante a noite. O projeto bom é aquele onde não é possível visualizar a fonte. Qualquer projeto de luz consistirá em três elementos básicos: uma fonte de luz, uma boa luminária e um método de instalação adequado ao uso conforme Normas Técnicas.

As tarefas visuais dependem apenas da luz irradiada no espectro visual, portanto evite fontes de luz que emitam radiação ultravioleta ou infravermelha, a menos que seja especificamente necessária à tarefa. Também sabemos que a luz dos comprimentos de onda mais curtos, ou seja, de temperatura de cor mais alta próxima ao espectro azul tem efeitos nocivos tanto na flora como na fauna e devem evitadas. Algumas cidades já começaram a fazer restrições em temperatura de cor aparente da luz e tem indicado que as fontes e luminárias utilizadas no espaço público tenham no máximo até 4.000 kelvin, com preferência ao 3000 kelvin, luz quente mais amarela no ambiente noturno.

Pesquisas recentes indicam que a luz no espectro azul tem importantes efeitos nocivos não visuais sobre a saúde do corpo humano, em particular em nossos padrões de sono / vigília, o chamado ciclo circadiano. Por isso, é importante destacar que o uso da luz azul deve ser minimizado, há muitas tarefas noturnas, como dirigir e esportes onde estar completamente acordado, é importante para a segurança, mas a produção da melatonina durante o sono é o aspecto mais importante na regeneração dos organismos, e o espectro de luz azul interrompe sua produção.

Deve-se ter cuidado na escolha da luminária para garantir melhor desempenho energético sem produzir ofuscamento, de preferência com incidência até no máximo 70° em relação ao piso. Evite qualquer luz direcionada ao céu.

Ao iluminar estruturas verticais, como sinais publicitários ou fachadas, direcione a luz de cima para baixo, sempre que possível. Se não houver nenhuma alternativa para iluminar, o uso de defletores e louvers ajudarão a reduzir o impacto do ofuscamento. Em áreas rurais é recomendado o uso de luminárias full cut-off.

A cartilha também recomenda que as cidades façam seus planos diretores de iluminação, levando em consideração todos os aspectos da Poluição Luminosa e seus impactos na saúde humana e na biodiversidade.

O “Institution of Lighting Professionals” (ILP) Fundada em 1924 na Irlanda, é a maior e mais influente associação de iluminação profissional no Reino Unido, dedicada exclusivamente à excelência em iluminação. Fundada inicialmente  como a Associação de Engenheiros de Iluminação Pública, o ILP evoluiu para incluir designers de iluminação, consultores e engenheiros entre seus 2 mil membros. O objetivo principal do ILP é promover a excelência em todas as formas de iluminação. Isso inclui interior, exterior, esportes, estrada, inundação, emergência, túnel, segurança e iluminação festiva, bem como serviços de design e consultoria. A Instituição é um órgão licenciado do Conselho de Engenharia.

www.iesna.org

 

Para saber mais sobre o assunto, assista ao documentário da TV escola “A Luz que vem da Escuridão”. Veja também os artigos publicados pelo Human Centric Lighting sobre Hearthcare e conheça o IDA – Dark Sky Association, uma associação destinada à pesquisas sobre a Poluição Luminosa e seus impactos nas populações humanas e animais.

www.dark-skyes.org

 

Os pesquisadores citados publicaram suas descobertas na revista Science Advances.
saiba mais:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_Bortle

https://tellescopio.com.br/poluicao-luminosa-astronomia-escala-bortle-para-ceu-escuro

http://cosmobrain.com.br/cosmoforum/viewtopic.php?f=3&t=3572

https://skyglowproject.com/

 

Iluminação é um assunto muito importante, ela afeta diretamente à sua saúde.

Grande abraço

 

Silvia Carneiro

 

 

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